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Marina Lima é atravessada pela perda do irmão Antonio Cicero em 'Ópera Grunkie', álbum para a tribo da artista

Aos 70 anos, Marina Lima lança o 22º álbum da discografia, 'Ópera Grunkie' André Hawk / Divulgação / Montagem g1 ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Ópera G...

Marina Lima é atravessada pela perda do irmão Antonio Cicero em 'Ópera Grunkie', álbum para a tribo da artista
Marina Lima é atravessada pela perda do irmão Antonio Cicero em 'Ópera Grunkie', álbum para a tribo da artista (Foto: Reprodução)

Aos 70 anos, Marina Lima lança o 22º álbum da discografia, 'Ópera Grunkie' André Hawk / Divulgação / Montagem g1 ♫ CRÍTICA DE ÁLBUM Título: Ópera Grunkie Artista: Marina Lima Cotação: ★ ★ 1/2 ♬ Faixa de atmosfera festiva, criada sobre base eletrônica de reggaeton e clima de música ambiente, “Olívia” deu a pista certeira de “Ópera Grunkie”, 18º álbum de estúdio de Marina Lima e o 22º álbum no cômputo geral da discografia dessa artista que entrou em cena em 1978. A melodia rala de “Olívia” dá o tom fragmentado do álbum lançado hoje, 24 de março, pela cantora, compositora e instrumentista de 70 anos. Ouvida de forma isolada, “Olívia” exalou certo charme que não se sustenta ao longo das 11 faixas do álbum. “Ópera Grunkie” apresenta a mais irregular safra de músicas inéditas de Marina Lima, compositora relevante que abriu alas no pop brasileiro ao longo dos anos 1980 em parceria com o irmão poeta Antonio Cicero (1945 – 2024). Individualmente, quase todas as canções de “Ópera Grunkie” se revelam aquém do histórico da artista, embora haja lampejos da inspiração da compositora em “Só que não” – parceria de Marina com Adriana Calcanhotto (coautora da letra) e Giovanni Bizzotto – e em “Um dia na vida”, colaboração da artista com Ana Frango Elétrico, parceira e convidada de Marina na música. Se “Um dia na vida” é faixa valorizada pelo arranjo vocal de Ana Frango Elétrico, hábil na harmonização do próprio canto agudo com a voz rouca de Marina, “Só que não” surge envolta em tom quase solene, operístico, potencializado pelas cordas programadas e arranjadas por Edu Martins. Como coprodutores de “Ópera Grunkie”, Arthur Kunz e Edu Martins são nomes fundamentais do álbum gravado de setembro a dezembro de 2025 com produção musical orquestrada pela própria Marina Lima. Capa do álbum 'Ópera Grunkie', de Marina Lima Colagem de Natália Lage e arte final de Maria Valiante No conjunto da obra, o álbum resulta mais interessante do que as canções em si porque flagra Marina Lima em ebulição, sem ligar o piloto automático. Em essência, “Ópera Grunkie” é disco para a tribo de Marina, artista desde sempre antenada com as novas tendências e famílias. Aberto com desnecessária regravação de “Partiu” (Marina Lima, 2015) e estruturado em três atos que pouco dialogam entre si, o álbum está impregnado de diálogos, ruídos, fragmentos e samples de vozes, como exemplifica a faixa “Collab Grunkie” (Eraldo Palmero, Laura Diaz, Marina Lima e Renato Gonçalves). O primeiro ato é atravessado pelo luto enfrentado por Marina com a morte de Antonio Cicero, que optou por sair de cena na Suíça, há dois anos, em procedimento de morte assistida. “Grief-stricken / Under thunderous skies you approach / And then, deliberately, pretend not to see them crying”, canta Marina em “Grief-stricken” (Antonio Patriota), dando voz a versos que podem ser traduzidos como “Aflito, enlutado, / Sob céus trovejantes você se aproxima / E então, deliberadamente, finge não vê-los chorar”. Na sequência, “Perda” (Arthur Kunz e Felipe Pinheiro de Souza) encadeia vozes e poemas de Antonio Cicero sobre arranjo concebido por Marina com Arthur Kunz (piano, bateria e percussão). E vem então “Meu poeta”, música (pouco inspirada) em que Marina, impregnada da nostalgia da modernidade da parceria com o irmão, celebra Cicero em versos como “Dosamos curvas e setas com nossas feições / Partimos como foguete rumo aos corações”. Alocado no segundo ato, “Samba pra diversidade” (Marina Lima) soa mais sedutor, deslizando macio, embalado pelas percussões de Dominique Vieira (congas, surdo, guiro, repique, bacurinha e efeitos) e pelo coro que entra no último minuto da faixa, alinhando as vozes de Renata Cavalcanti, Lídice Xavier, Kessya Fernandes, Renata Young, Renato Gonçalves, François Dufraise, Vicky Xavier e Cao Albuquerque. Quase ao fim de “Ópera Grunkie”, Marina se junta a Adriana Calcanhotto para trazer à tona “Chega pra mim” (Marina Lima e Márcio Tinoco, 2015), música que jazia esquecida em EP de Leila Pinheiro. O violoncelo de Daniel Silva e os violinos de Daniel Albuquerque e Thiago Teixeira dão revestimento levemente erudito à faixa em sintonia com “Finale (Brahma Chopin)”, tema de Marina Lima e Arthur Kunz que encerra efetivamente o álbum na recorrente atmosfera eletrônica. No resumo da “Ópera Grunkie”, o álbum soa – no todo – melhor do que as canções em si porque mostra uma artista tentando dar um passo à frente, sem clonar fórmulas de sucessos anteriores, sem virar um clone de si mesma, mas não a ponto de cativar além da tribo que celebra tudo o que Marina Lima faz sem senso crítico. Marina Lima canta sobre a partida de Antonio Cicero (1945 – 2024) na música 'Meu poeta', uma das 11 faixas do álbum 'Ópera Grunkie' André Hawk / Divulgação